World Ayahuasca Conference 2016 | Terá o Brasil se Tornado o Novo Epicentro da Ciência Psicodélica no Mundo? por Bia Labate
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Terá o Brasil se Tornado o Novo Epicentro da Ciência Psicodélica no Mundo? por Bia Labate

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21 Jun Terá o Brasil se Tornado o Novo Epicentro da Ciência Psicodélica no Mundo? por Bia Labate

Faço parte do comitê científico do Segundo Congresso Mundial da Ayahuasca, que será realizado em outubro próximo em Rio Branco, na Amazônia brasileira. Gostaria de partilhar com vocês algumas das incríveis pesquisas que envolvem a ayahuasca.

O congresso combina uma sessão principal, uma sessão paralela composta de pesquisadores que responderam à “chamada para resumos”, um festival de cinema e uma série de eventos culturais. A sessão principal terá representantes das religiões ayahuasqueiras brasileiras, cerca de 100 índios e 11 mesas-redondas. Inclui: xamanismo amazônico, cultura e patrimônio cultural, pesquisa científica, usos contemporâneos, intervenções clínicas, desafios da globalização, políticas e legislação, meio ambiente e sustentabilidade, plantas da Amazônia, questões de gênero e riscos.

Na primeira edição do congresso em Ibiza, em 2014, houve cem propostas de apresentações. Agora, dois anos mais tarde, este número dobrou. A ciência da ayahuasca parece estar se espalhando pelo mundo tão vigorosa e dinamicamente como a própria bebida. Alguns profissionais estão se torando cada dia mais inspirados para estudar esta intrigante substância por meio das lentes de diferentes disciplinas.

Das 200 propostas recebidas, 120 foram para o fórum acadêmico e 80 para o fórum comunidade, que consiste de praticantes com conhecimento empírico e tradicional. Os resumos vêm de impressionantes 28 países! Metade das propostas é da área de ciências sociais e a outra metade dos campos da biomedicina, psicologia e saúde pública. Embora haja uma predominância de pesquisadores e praticantes do sexo masculino, um número crescente de mulheres tem expressado interesse em apresentar sobre esses temas.

Eis um resumo da variedade de tópicos: ayahuasca para moradores de rua, usuários problemáticos de drogas e álcool, veteranos de guerra e prisioneiros, para lidar com a morte e com o parto, bem como o papel da ayahuasca nos distúrbios da saúde mental e para aumentar o bem-estar psicológico. Os trabalhos focalizam também a prática ritual, o conhecimento xamânico, as relações interétnicas, o hibridismo cultural, a transnacionalização religiosa, as políticas de cura e a comodificação. Além disso, serão contempladas a relação com as terapias alternativas e com a espiritualidade New Age. Algumas apresentações também abordam os tópicos da legalidade, dos riscos à saúde e do abuso sexual. Finalmente, fazem parte do cardápio artes e música, bem como ecologia e conservação.

Quase a metade das propostas veio do Brasil. Embora isto seja compreensível, o congresso revelou, para nossa surpresa, o surpreendente surgimento de novos grupos de pesquisa por todo o país. São eles:

 

Programa de Orientação e Tratamento a Dependentes (PROAD)
São Paulo
Dr. Dartiu Xavier da Silveira

Este é um grupo de pesquisa sobre a ayahuasca que existe há 21 anos, que surgiu no contexto do PROAD, instituição que vem realizando pesquisas sobre drogas desde 1991. Atualmente, cerca de 20 professores, pós-docs, alunos de graduação e pós-graduação pesquisam os potenciais terapêuticos e o uso ritual da ayahuasca, inclusive estudos epidemiológicos, ensaios clínicos, estudos de comorbidade, neurociência e redução de danos.

 

Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP)
São Paulo e outras cidades
Dr. Bia Labate

Uma rede virtual de ciências sociais que existe há 15 anos, com 70 professores e pesquisadores em nível de pós-graduação. Os membros do grupo organizaram vários congressos, publicaram dois livros e um grande número de teses de mestrado e dissertações de doutorado, principalmente nas áreas de antropologia, sobre as religiões ayahuasqueiras brasileiras (Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal), novos usos urbanos da ayahuasca, bem como usos indígenas e mestiços da ayahuasca.

 

Universidade de São Paulo (USP)
Ribeirão Preto
Dr. Jaime Hallak, Dr. José Alexandre Crippa, Dr. Flávia Osório and Dr. Antônio Zuardi

Um grupo de pesquisa de mais de 20 professores, pós-docs, alunos de pós-graduação que pesquisam há mais de uma década novas drogas para o tratamento de transtornos neuropsiquiátricos, tais como depressão, ansiedade, esquizofrenia e doença de Parkinson. O grupo é uma das equipes científicas brasileiras mais produtivas no campo biomédico. Realizam estudos clínicos tanto com voluntários saudáveis como com pacientes, investigando, entre outros, o potencial uso terapêutico de várias drogas, como a ayahuasca, o canabidiol, o nitroprussiato de sódio e a ocitocina.

 

Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
Natal
Dr. Draulio de Araujo

Este é um grupo interdisciplinar que existe há sete anos, composto por 30 pesquisadores, incluindo professores, pós-docs, alunos de graduação e de pós-graduação. O interesse de suas pesquisas inclui os efeitos efeitos agudos, duradouros e antidepressivos da ayahuasca. Investigam-se diferentes marcadores biológicos e de comportamento nos campos da bioquímica, neuropsicologia e neuropsiquiatria, usando métodos tais como ressonância magnética e eletroencefalografia.
Universidade de Brasília (UNB)
Brasília
Dr. Regina Célia de Oliveira

Este trabalho é de um grupo existente há dois anos, composto de seis pesquisadores de botânica e um toxicologista, incluindo professores e alunos de graduação e pós-graduação. O foco da pesquisa é tanto descobrir quais espécies do cipó Banisteriopsisspp são usadas pelas religiões ayahuasqueiras brasileiras como compreender o conhecimento etnobotânico que elas têm dessas espécies. O foco inclui a morfologia externa, a análise citogenética, o sequenciamento do DNA, a caracterização química, a fitoquímica, a anatomia, a variabilidade genética, a conservação, a análise filogenética, a composição química e os compostos bioativos presentes nas plantas.

 

State University of Campinas (UNICAMP)
Campinas
Dr. Luis Fernando Tófoli

Este é um grupo interdisciplinar existente há um ano, composto de 20 professores, pesquisadores e alunos. Os interesses de suas pesquisas incluem o manejo agrícola da Banisteriopsis caapi and Psychotria viridis, análise química das plantas e de formulações de ayahuasca, a fisiologia da ayahuasca e seus componentes, a estabilidade das amostras de ayahuasca, a liofilização, a metabolômica, os potenciais terapêuticos e os estudos neurocientíficos.
De acordo com os pesquisadores, os principais desafios são:

  • conseguir financiamento;
  • ter acesso à DMT;
  • a ortodoxia de alguns grupos ayahuasqueiros e o acesso a eles;
  • conseguir voluntários para os experimentos (devido aos critérios de recrutamento);
  • preconceito dos profissionais de saúde;
  • acesso ao cipó e à folha, tanto os que crescem na natureza como os cultivados;
  • os desafios analíticos de caracterizar a química das plantas coletadas.

 

Por outro lado, como benefícios potenciais, essas pesquisas podem:

  • reconhecer e registrar uma grande variedade de ricas práticas culturais;
  • ampliar o conhecimento de diversos contextos de uso e seus significados;
  • dissipar o estigma e a criminalização;
  • trazer mais legitimidade para os grupos ayahuasqueiros;
  • propor alternativas para os desafios da expansão;
  • informar sobre os riscos e benefícios;
  • aprender sobre processos mentais saudáveis em indivíduos saudáveis;
  • encontrar tratamentos alternativos para doenças ou transtornos mentais, inclusive novas formas de tratamento para a depressão e a ansiedade;
  • desenvolver terapias psicodélicas;
  • conhecer a origem e idade das espécies vegetais que compõe a ayahuasca;
  • conhecer a diversidade cultural e genética das plantas.
  • Apesar dos enormes desafios no cenário político e científico brasileiro, a ciência psicodélica parece estar crescendo naturalmente. Caso você se interesse por esses tópicos, este congresso é “como o mel para a abelha,” como dizemos no Brasil.

 

Venha juntar-se a esse diálogo único entre o conhecimento tradicional e a ciência!

Este texto é uma tradução do original “Is Brazil the New Epicenter of Psychedelic Science in the World?” publicado em: http://www.huffingtonpost.com/bia-labate/is-brazil-the-new-epicent_b_10530594.html

 

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